Ligeiramente Extraordinário!

    Lá estava ele.
    Será que eu estava olhando muito descaradamente? Bem, por uns instantes eu não liguei para a descrição. Tudo que eu queria era que ele me notasse.
    Sabe aquela coisa boba que as pessoas chamam de amor? Pois bem, eu acho que estava sentindo isso. Era estranho, nunca tinha falado com ele. Só o via passar diante da minha mesa com seus amigos.
    O mundo dele parecia ser mais divertido do que o meu, porque ele perderia tempo olhando para os lados?
    Ele passara depressa, mas eu estava treinado para vê-lo, não importava a velocidade com a qual ele passava. Ele vestia uma bermuda branca com desenhos verdes e uma camiseta branca que casava muito bem com sua pele morena.
    O amor muda mesmo as pessoas, não? Sabem aquele perfume, o Kaiake? Pois bem, eu detesto esse perfume, mas quando ele o cheiro se torna o mais agradável do mundo.
    -Viajando novamente? –Perguntou minha amiga, Tatiane. Bem, era minha amiga, mas eu não tinha contado para ela meu maior segredo. Tinha certeza de que ela desconfiava, mas nunca tinha falado nada comigo. –Em qual livro dessa vez?
    -Ah, não estou viajando. –Disse parando de encará-lo bem depressa.
    -O que tem de tão interessante no Felipe e no grupinho dele?! –Ela perguntou quando viu que era lá que eu estava perdido.
    Felipe. Sempre derretia por dentro com a menção desse nome. Mas não podia deixar isso transbordar. Não entendia muito bem porque, mas eu escondia o fato de que eu era gay.
    -Nada. –Eu disse. –Acho que eles estavam falando do carnaval novamente. –Eu disse. –Animada?
    -Nem sei. –Ela disse. –Uns colegas do curso de inglês estão querendo ir e me chamaram. Quer ir?
    -Não sou disso. –Eu disse. –Sem contar que eu me sentiria um peixinho fora d’água com vocês.
    -Ah, para! –Ela disse me dando um tapa nas costas.
    -Piranha! –Eu gritei chamando a atenção da turma toda. Tatiane era uma garota loira, bem magrinha, mas quando ela pegava para bater sua mão tinha o peso da mão de um homem.
    Tive vontade de enfiar o rosto no piso da sala. Felipe estava me olhando, e ele ria. Sempre tive problemas de baixa estima, então fiquei me perguntando se ele ria do que eu tinha dito ou se estava rindo de mim.
    Já sabia como seria minha tarde: Eu encostado no balcão da locadora que trabalho reclamando com Deus por ter me deito tão... eu.
    Peguei o celular e olhei disfarçadamente para ver se tinha algo no meu rosto ou no meu cabelo. Não tinha nada de errado, bem, tudo estava errado, mas aquele era eu. Negro, lábios carnudos, olhos pequenos e tristes e com um rabo de cavalo. Bem, eu o classificava como um rabo de pônei, mas como todos dizem que é de cavalo.
    O professor entrou na sala. A aula era de biologia. Vou confessar que por um tempo tive uma forte queda, quase um precipício pelo professor. Os olhos dele eram azuis e a barba mal feita, um sonho.
    Ele sempre brincava muito com o grupinho do Felipe. Sempre que tinha que dar visto no caderno ele colocava coraçõezinhos no caderno deles. Eu não entendia a graça, bem, se ele colocasse um coração no meu caderno entraria em um mundo maluco que gira ao meu redor e pensaria que ele estava apaixonado por mim.
    Quando a aula acabou fui direto para o meu serviço. Uma pequena locadora perto da minha casa. Era do meu tio, por isso conseguira trabalhar lá sem nem mesmo ter um currículo.
    Vários tipos de pessoas entravam lá o dia todo. Tinha as garotinhas chatas que corriam para os romances (filmes que eu evitava por serem cruéis para pessoas solitárias como eu.), tinha os velhos tarados que iam direto para a sessão dos pornôs, e tinha os casais que me irritavam. Todo aquele grude, sempre pegavam uma comédia romântica e um filme de terror. Os mais fogosos levavam filmes de adultos também.
    Este seria um dia comum se não fosse por um cliente bem diferente. Eu estava limpando o balcão quando a porta abriu. Deixei a flanela que eu usava cair no chão e fiquei boquiaberto.
    Lá estava ele.
    Será que ele estava praticando uma coisa que eu vira nos seriados? Aquela coisa de se fazer presente na vida das pessoas? Percebem que eu já estava viajando, não? Ele nunca falara comigo.
    -Ah, você é lá da escola, não? –Ele perguntou. –Bem pode me dizer onde ficam os DVDs de shows de rock? –Ele perguntou antes que eu pudesse responder.
    Meus movimentos foram os mais ridículos possíveis. Tentei dizer, mas só consegui balbuciar, um calor anormal tomou conta do meu corpo.
    -Onde ficam? –Ele perguntou.
    Eu simplesmente levantei o braço apontando a prateleira. Foi o máximo que consegui fazer.
    Quando ele se afastou a tensão do meu corpo se foi. Desabei sobre o balcão sentindo-me um lixo pelo que acabara de acontecer.
    Essa era a sua chance de quem sabe começar uma amizade com ele. Comecei a pensar. Quem sabe não deixasse de ser o garoto da escola para se tornar Bruno, o colega de Felipe?
    Levantei a cabeça para procurá-lo. Pensei em ir atrás dele e perguntar qual ele estava procurando, mas tudo o que consegui fazer foi ficar admirando o corpo dele do balcão.
    Ele continuava com a bermuda, mas a blusa já era outra. Esta era preta, bem colada no corpo, e nela tinha um par de óculos pendurado.
    -Ah, vocês tem DVDs do Linkin Park? –Ele perguntou.
    Eu não ouvi, ou não consegui me mover. Meus olhos estavam agarrados nos pelos da canela dele. Só quando ele começou a caminhar na minha direção que fui capaz de olhar para o outro lado.
    Ele me olhava com os olhos semi-serrados.
    -Tem DVDs do Linkin Park? –Ele perguntou olhando fixamente nos meus olhos.
    Bem depressa desviei os meus e comecei a balbuciar, mas dessa vez foi algo mais compreensível.
    -Vão chegar ama... amanhã. –Eu disse suando.
    Ele colocou um DVD do 30 seconds to mars sobre o balcão e ficou me olhando.
    -Vou levar esse. –Ele disse sorrindo. –Não sei se é abuso, mas tem como você levar o DVD para mim amanhã na escola, bem, depois de amanhã, não é?
    -Ah, levo. –Eu disse depressa, e isso o fez rir mais. Só não sabia de que ele estava rindo. –Tenho que fazer sua ficha.
    Eu entreguei uma caneta e a ficha para ele preencher. Não tinha me dado conta, mas naquela ficha ele colocaria algumas coisas tipo as que as populares nos filmes mandam suas subalternas descobrirem sobre o garoto novo: telefone, nome, e-mail, endereço... O diferencial é que eu não era mulher e nem tinha um corpo voluptuoso que o fizesse morrer de desejo. Eu era só... eu.
    -Seu nome é? –Ele me perguntou depois que coloquei o DVD numa bolsa.
    -Bruno. –Disparei bem depressa.
    Ele saiu de lá rindo.
    Será que ele tinha reparado no quão patético eu ficava perto dele? Na certa ele tinha percebido que eu era gay. Eu não fazia nenhum esforço hercúleo para que as pessoas não percebessem. Eu só não tinha contado para ninguém.
    Cheguei em casa seis e meia da tarde. Meu celular tocou.
   -O que foi?! –Perguntei. Era Tatiane, e costumávamos atender o telefone assim.
    -Quer sair hoje? Eu e uns amigos vamos comer pizza...
    -Ah, eu estou morto. –Essa era a minha desculpa para todas as vezes que me chamavam para sair. Sempre que eu saia eu me fazia a mesma pergunta: O que eu estou fazendo aqui? E eu detestava não ter a resposta para isso. –Deixa para a próxima.
    Desliguei o telefone antes que ela tentasse me convencer. Liguei o computador e fiquei olhando o facebook. Vários meninos lindos apareciam nos amigos sugeridos, mas eu nem me atrevia a tentar adicioná-los. Sabia que não aceitariam.
    Uma ideia me ocorreu.
    Fui na barrinha para procurar e digitei o nome de Felipe. E lá estava ele, o primeiro da lista de Felipes.
    Na foto do perfil tinha uma garota abraçando ele. Na hora tive ódio dela. Não devia ser do bairro, pois eu nunca a vira.
    Olhei em tudo, até salvei algumas fotos dele. No relacionamento estava “Aberto”. Isso devia ser bom, não?
    Depois de muito fuçar no facebook dele decidi desligar o computador. Mas antes de desligar o computador eu sempre dava uma olhada no MSN, e como sempre não tinha ninguém online. Tive vontade de adicionar o email do Felipe, mas ele saberia que era eu.
    Voltei para o facebook antes de fechar a janela e vi uma solicitação de amizade.
    Lá estava ele, com a garota agarrada.
    Felipe queria ser meu amigo no facebook.
    Depois que me recuperei e o adicionei recebi uma mensagem. Era um “oi” dele.
    Não vou chamar de desmaio, mas perdi minha consciência por uns segundos. Eu esqueci como se escrevia um simples “oi”.
    Quando digitei saiu algo do tipo: “oiuyh!”
    Ele me mandou um smile.
    Eu estava me recuperando. Não era tão desajeitado quando estava na internet. Sabe a falsa sensação de proteção que ela nos dá? Então, comecei a me apoiar nela. Respirei fundo e comecei a digitar.

Bruno: Oi!
Felipe: Não esquece do DVD.
Bruno: Não vou. ?


    Queria que a conversa fosse mais longa, mas do nada ele ficou offline, e eu meio destroçado por dentro. Fiquei esperando meia hora imaginando que a internet dele tivesse caído, mas ele não voltou.
    Fui dormir.

    No dia seguinte, na escola ele passou e falou oi, mas foi só. No dia seguinte ele falou mais, pois eu estava com o DVD do Linkin Park que ele queria.
    -Valeu cara! –Ele disse apertando minha mão.
    Era como se ele tivesse algum poder de fogo. O calor de sua mão tomou conta de meu corpo todo. A mãe dele era grande, quente e macia. Se eu estivesse de máscara teria revirado os olhos, mas eu não estava, então fiquei olhando nos olhos dele.
    Depois de um minuto de aperto de mão ele se afastou e foi rir com os amigos dele.
    -Desde quando vocês ficam nessa de emprestar DVDs? –Tatiane me perguntou. –Antes de ontem ele nem olhava para cá.
    -Não estou emprestando. –Eu disse. –Ele alugou.
    -E desde quando você entrega DVDs na escola?
    -Não enche, Tatiane. –Eu disse tentando fazer com que ela mudasse de assunto. –Ah, e como foi a pizza?
    -Ótima. –Ela disse me olhando com os mesmos olhos semi-serrados que Felipe me olhara. –Falo tanto de você para o pessoal do curso que eles querem te conhecer.
    Eu ri.
    -Falou bem ou mal?
    -Só tenho coisas boas para falar de você. –Ela disse.
    -Own! –Eu fiz e mostrei um coração com a mão. Me senti culpado por não ter contado para ela que eu era gay. Ela era minha amiga.
    Quando a aula acabou eu tinha tomado uma decisão. Contaria para ela que eu era gay. Seria bom, dizem que o peso diminui.
    -Posso falar com você? –Perguntei.
    -Se for para pedir dinheiro eu estou lisa. –Ela disse sorrindo.
    -Não é isso. –Eu disse. –Tem que ser num lugar bem reservado.
    -Matou alguém? –Ela perguntou com espanto.
    -Claro que não. –Eu disse a puxando para trás da biblioteca da escola.
    Para a minha sorte não tinha ninguém lá. Me sentei e pedi que ela se sentasse. Baixei os olhos e fiquei pensando por onde eu poderia começar. Mil formas passaram pela minha cabeça, mas o que saiu não foi nada do planejado:
    -Eu sou gay! –Disparei. Ela ficou imóvel me olhando, e isso estava me matando. Era agora que ela levantava dizendo insultos e eu abaixava a cabeça e começava a chorar. –Fala alguma coisa. –Eu disse com os olhos cheios de lágrima.
    Ela piscou, me olhou dos pés a cabeça e tombou a própria cabeça.
    -Você me arrastou até aqui para isso. –Ela disse. –Não é nenhum segredo que você é gay. –Ela disse. –Você rebola quando anda.
    -Não rebolo. –Eu disse. Realmente eu rebolava, mas era mais forte do que eu.
    Ela sorriu, isso me deixou mais aliviado. Tatiane não ria quando estava irritada.
    -Fico feliz que tenha confiado em mim para contar isso. E espero que eu seja a primeira pessoa para quem você está falando isso. –Ela fingiu que ia me dar um soco.
    -Primeiríssima. –Eu disse.
    -Mas, sério, não é segredo. Bem, não saiu da sua boca, mas as pessoas sabem. E, vamos combinar que esse seu cabelo não é nada másculo. –Ela puxou meu rabo de pônei.
    Fiquei me perguntando o porquê de ter demorado tanto para contar para ela. Talvez minha vida fosse diferente.
    -Bem, agora que não temos segredos você vai ter que sair comigo e com o pessoal do curso. –Ela disse. – Sei que você vai gostar.
    -Mas eu estou indo trabalhar. –Eu disse.
    -No carnaval. –Ela disse. –Depois de amanhã. Não é possível que seu tio não vá te dar um diazinho de folga.
    Desta vez não tinha como usar minha desculpa de sempre, pois ela estava bem diante de mim. E desta vez eu não tive vontade de mentir, eu queria ir. Ela foi comigo até a locadora, e no caminho eu contei para ela sobre o que eu sentia pelo Felipe.
    -Nossa! –Ela disse. –Mais um segredo seu que todo mundo sabe. Eu já vi como você olha para ele. Você não é muito bom bancando o enrustido.
    Só consegui rir. Parecia que um mundo novo estava se abrindo bem diante dos meus olhos. Eu tinha mais vontade de viver.
    -Bem, então até amanhã. –Eu disse para ela quando chegamos a locadora.
    -Até. –Ela disse me dando uma tapa na bunda. Isso era novo.
    Eu estava tão animado que decidi varrer a locadora toda, e depois passar pano. Não era um lugar muito grande, mas nos dias anteriores parecia um shopping para mim.
    A porta de abriu e Felipe entrou com o DVD do 30 seconds to mars.
    -Vim entregar o DVD. –Ele disse balançando o DVD.
    Imaginei que fosse começar a gaguejar ou coisa do tipo. Mas eu estava feliz e um pouco mais confiante.
    -Ah, podia ter deixado para entregar junto com o do Linkin Park. –Eu disse caminhando para pegar o DVD.
    -Não quero pagar com juros. –Ele disse sorrindo.
    Será que ele sabia o efeito que o sorriso dele tinha em mim?
    -Juros de você? –Eu disse. –Jamais.
    -Porque não?
    Eu disse alto?! Droga! Ainda bem que não completei a frase, pois o restante era bem picante.
    -Ah, bem. Não cobro juros dos amigos do Facebook. –Me sai bem.
    Ele sorriu.
    -Podia ter me falado antes de ontem.
   Ele riu, e eu também.
    -Vai fazer algo no carnaval? –Ele perguntou. Isso me deixou muito, mais muito curioso. Porque ele queria saber o que eu faria no carnaval? Minha mente começou a viajar, mas eu a fiz parar bem depressa.
    -Vou sair com a Tatiane e uns amigos do curso dela. Por quê? –Perguntei.
    -Nada não. –Ele disse. –Sempre vejo a Tatiane na praça, mas você nunca está com ela. Imaginei que não curtisse festas.
    O que? Ele percebia quando eu não estava por perto? Meu coração deu três cambalhotas dentro do meu peito e depois derreteu.
    -Ela me chama, mas... sei lá, nunca tive vontade de ir.
    -Hum... –Ele disse pegando a carteira. –Quando é?
    -Cinco reais. –Eu disse. E ele me entregou o dinheiro.
    -Bem, talvez a gente se veja no carnaval então. –Ele disse guardando a carteira no bolso da bermuda.
    -Eah. –Eu disse. Queria sondar mais, talvez perguntar sobre a garota que estava agarrada nela, mas não sabia qual seria a reação dele. O que eu podia dizer?
    -Até! –Ele disse fechando a porta.
    Então era isso? Felipe era meu colega, e quando eu não estava por perto ele percebia. Isso era muita coisa pra eu digerir. Fui obrigado a me sentar na cadeira. E por ali eu fiquei até que a loja fechasse.
   
    No dia seguinte na escola contei tudo para Tatiane. Ela não opinava muito quanto a isso, apenas dizia que eu devia ir devagar com os meus sentimentos antes de saber qual era a dele.
    -Não quero que fique com um grande rombo no coração. –Ela disse. –Você não sabe se ele gosta da mesma fruta que você. –Ela disse. –Da mesma fruta que nós gostamos. –Ela sorriu. –E pelo que disse aquela garota deve ser a namorada dele. Ele é lindo, não ficaria solteiro, ficaria?
    Porque eu não era aquela periguete agarrada a ele? Por quê?
    -Vou cuidar do meu coração. –Eu disse.
    -Bem, é amanhã. –Ela disse animada. –Carnaval. Como se sente saindo para festejar pela primeira vez?
    -Animado, e cheio de expectativas. –Eu disse. E sabia que criar expectativas não era bom. –Dizem que é bom. Agora vou dar o meu carimbo de bom ou ruim. –Fiz um like com a mão e depois o virei para baixo.
    -Esqueci que você era chato. –Ela disse.
    Quando a aula acabou e estávamos saindo olhei para Felipe, e ele acenou para mim. Eu acenei de volta, e então segui Tatiane.
    Meu tio concordara em me dar uns dias de folga. Ele reconheceu que eu trabalhava até nos sábados e domingos e que merecia pelo menos uma semana para descansar. Então naquela sexta eu nem fui trabalhar.
    Fiquei a tarde toda na casa da Tatiane. Ela ligou o computador e deixou o CD da Taylor Swift tocando enquanto ficávamos deitados no chão olhando para o teto e falando de garotos.
    Posso dizer que era ótimo poder falar meio que abertamente sobre garotos.
    -Que tipo de garoto você gosta?! –Ela me perguntou.
    -Bem, não tenho nenhum parâmetro. –Eu disse. –nem posso escolher, mas se Deus me mandasse uns Felipes eu não reclamaria.
    -Esqueça esse Felipe. –Ela disse sorrindo. –Tenho coisa melhor do que ele. No meu curso tem um garoto que vai te agradar. O nome dele é Pedro, e posso afirmar que ele joga no seu time, nos dois times. Tem uma garota que disse que ouviu ele terminando com o namorado pelo telefone.
    -Que romântico. –Eu disse.
    -Moderno. –Ela disse. –Mas se fosse comigo eu o caçaria e daria uma coça nele. Se vai acabar com tudo pelo menos fale na minha cara.
    -Você já terminou por sms. –Eu disse.
    -Mas o garoto era meio psicótico. –Ela disse. –Se eu dissesse na frente dele ele correria atrás de mim com uma faca de serrinha.
    Começamos a rir. Fizemos isso até que o sol se fosse. O Cd tocou umas quatro vezes sem parar. Então o telefone dela tocou.
    Não tínhamos segredos, mas ela saiu do quarto para atender o celular. Me levantei e sentei na frente do computador. Abri a pasta de fotos e fui passando todas. Os garotos do curso dela era bem bonitos, mas não foi o mais bonito que chamou minha atenção. Ele era bem magro, devia ter 1,90 de altura, mas me agradou. Ele usava bermuda, como se tivesse acabado de jogar futebol e um abadá de carnavais passados. O cabelo preto bem cortado. Fui obrigado a dar zoom na foto.
    -Esse é o Pedro. –Tatiane disse quando entrou no quarto. –Gostou?
    Por um instante me esqueci que Tatiane sabia do meu “segredo”. Tive o impulso de fechar a janela e negar qualquer coisa, mas então me dei conta de que não precisava fazer isso.
    -Muito. –Eu disse.
    -Que bom. –Ela disse.
    -Por quê? –Perguntei. Porque era bom o fato de eu achá-lo bonito? Será que ele estava afim de mim? Mas isso era impossível. Eu via um modelo dentro dele, e eu ainda era apenas... eu.
    -Nada. –Ela disse. –O que vai vestir amanhã? –Ela me perguntou.
    Eu sabia que ela só queria mudar de assunto, e também sabia que não adiantava teimar com ela. Ela não soltaria nada.
    -Meu uniforme de sair. –Eu disse. –Blusa xadrez, calça jeans e meu all star. Por quê?
    -Porque eu quero saber, ué.
    -Você está armando alguma coisa, não está? –Perguntei. Mas ela não disse nada, apenas sorriu.